Sobre a Madonna Sixtina
Todas as perguntas ainda por responder acerca
da Arte e da obra de arte se reúnem em torno desta imagem[1].
A palavra imagem, neste caso, quer dizer apenas:
rosto, no sentido de um olhar-que-vem-ao--encontro como chegada. A imagem,
entendida desta maneira, ainda é anterior à sua diferenciação como «pintura de
uma janela» ou como «quadro»[2]. No caso único da Sixtina,
esta diferença não é meramente categorial, mas histórica. Tanto «pintura de uma
janela» como «quadro» são, cada um à sua maneira, imagens. A Sixtina, porém,
converteu-se em quadro e em peça de museu – nisto encobre-se o processo
histórico próprio da arte ocidental desde o Renascimento. E, contudo, a Sixtina
talvez nem sequer a princípio fosse «pintura de uma janela». Ela foi
transformada – o que significa que assim permanece – num ser único na sua
espécie como imagem.
Theodor
Hetzer[3], ao lado de quem me sentava
no mesmo banco do liceu de Friburgo e a quem recordo com admiração, escreveu de
forma tão esclarecedora acerca da Sixtina, que todos temos que agradecer a sua
visão poderosamente sugestiva. No entanto, aquele seu comentário em que diz que
a Sixtina não está ligada a nenhuma igreja não requer nenhuma instalação
determinada», chocou-me. Isto, que pensado esteticamente está certo, carece,
porém, de verdade autêntica. Onde quer que esta imagem venha a ser «instalada»,
aí terá perdido o seu sítio[4]. Fica-lhe vedado o desdobrar
da sua essência própria de modo originário, quer dizer, o determinar ela
própria esse sítio. Alterada na sua essência como obra de arte, a imagem
extravia-se no alheio[5]. Este alheio não
chega a ser reconhecido na representação museica[6],
que conserva a sua própria necessidade histórica e o seu direito. A
representação museica situa tudo ao mesmo nível na uniformidade da «exposição».
Nesta apenas há lugares, não há sítios.
A Madona Sixtina pertence àquela igreja em
Piacenza não em sentido histórico-antiquário mas pela sua essência como imagem.
De acordo com esta, a imagem aspirará sempre a ir para lá. Bem sei que não sou
competente nem estou preparado para tomar parte numa discussão sobre este
assunto. Fiquem, pois, as observações seguintes a título de «especulações». Na
verdade, também «speculari» é um olhar, embora um olhar não sensível.
A propósito de «pintura de uma janela»
haveria que perguntar: o que é uma janela? O enquadramento desta limita o
aberto da transparência para o reunir, mediante os limites, no livre dom do aparecer.
A janela enquanto deixar-entrar do aparecer que se aproxima é um olhar para a
chegada.
Mas no acontecimento único desta imagem
única, a imagem não aparece de modo adicional através de uma janela já
existente. Pelo contrário, é somente a imagem que, por si mesma dá-imagem[7] à janela. É por
isso mesmo que aquela não é um mero retábulo [Altarbild] em sentido corrente. É imagem do altar [Altar-Bild] num sentido muito mais
profundo.
O pintado dura à sua maneira. Mas a imagem,
no seu aparecer, vem sempre e só de repente, não é sequer mais que o repentino
deste aparecer. A Virgem Maria traz o Menino Jesus de tal maneira que ela
própria só por ele é trazida a emergir[8]
na sua chegada, que traz em si e consigo o encoberto recolhimento da sua
proveniência.
O trazer em que a Maria e o Menino estão
sendo[9] reúne o seu acontecer no olhar que nos
encara, no qual está posta a essência de ambos e pelo qual esta é figura.
Na imagem, na medida em que é esta imagem,
acontece o aparecer do fazer-se homem de Deus, acontece essa transformação que se dá no altar como
transubstanciação, aquilo que é o mais próprio do sacrifício da missa.
A
imagem não é mera reprodução, mera imagem sensível da sagrada eucaristia. A
imagem é o aparecer do jogo tempo-espaço como sítio onde o sacrifício da missa
é celebrado.
O sítio é sempre um altar numa Igreja. Esta
pertence à imagem como esta àquela. Ao acontecimento único da imagem
corresponde necessariamente a sua singularização no sítio não-aparente de uma
igreja entre tantas outras. Por sua vez, esta igreja (ou seja, cada indivíduo
da sua espécie) reclama essa janela única dessa imagem singular: ela funda e
consuma a edificação da igreja.
Assim, a imagem dá-imagem ao sítio do
cobrir-se descobridor (Ά-λήσεια),
sendo como tal descobrimento que a imagem exerce a sua essência. O modo do seu
descobrir-se (da sua verdade) é o aparecer ocultante da pro-veniência [Her-Kunft] do Deus-Homem. A verdade da
imagem é a sua beleza.
Noto, contudo, que tudo isto não passa de um
balbuciar insuficiente.
Tradução de Irene Borges-Duarte
In: “A Arte como
epifania”,
Filosofia (Lisboa), III, 1989, 74-77
[1] Bild. A ambiguidade do termo
neste contexto – Bild significa primeiramente imagem, mas poderia
aqui querer dizer também quadro – é deliberadamente usada pelo autor.
[2] Fenstergemälde e Tafelbild são
duas formas possíveis de interpretar o sentido primitivo que Rafael pretendeu
dar à sua obra. Expressam, por outro lado, duas das múltiplas teorias surgidas
sobre essa questão. Conforme a finalidade atribuída à obra, assim esta foi
considerada como a representação pictórica de «uma janela» (devido à sua
localização entre duas janelas de semelhante formato, na igreja de São Sixto)
ou como um «quadro» igual a qualquer outro (exigindo como tal uma moldura
adequada, ao contrário da «janela» que, pelo contrário, exigira não ter
moldura nenhuma). Putscher dá notícia desta discussão estética e crítica (cf. o. c. , pp. 210-211), mencionando
igualmente as duas restantes teorias: a Sixtina enquanto palco do teatro
celeste, e enquanto estandarte de procissão. Heidegger limita-se aqui a
chamar a atenção para o facto de a Sixtina poder ser, enquanto «imagem», mencionada de forma
prévia à interpretação estética que qualquer das restantes designações
pressupõe.
[3] Theodor HETZER, à memória de quem
Heidegger dedicou, em 1960, a edição de UKw publicada pela editorial Reclam,
foi autor de diversos trabalhos sobre a pintura Renascentista e Barroca em
geral e sobre Rafael em particular, um dos quais monográfico sobre a Sixtina: Die
Sixtinische Madonna, Frankfurt a. M. , bei Klostermann, 1947 (73. p).
[4] Heidegger pretende doferenciar Ort
(que em KuR aparece como tradução do grego τοπός)
e Stelle. Optámos por traduzir o primeiro termo por sítio, pelo
investimento que tem em português (indica um espaço geográfico assinalado por
um acontecimento singular – ex., o Sítio na Nazaré, como local sagrado),
deixando para o segundo a palavra lugar, de uso mais vasto e
significação mais abstracta.
[5] Die Fremde. A tradução
alheio pretende manter a vinculação com «alienação», presente no termo
alemão (Fremde - Entfremdung), tanto na sua ressonância hegeliana, como
no evidente eco desta na meditação de Heidegger.
[6] O neo-logismo «museica» tenta
traduzir, talvez algo desafortunadamente, o alemão museal, relativo a
museu.
[7] «… das Bild
selber bildet erst dieses Fenster…» Traduz-se
bilden (formar, criar) por dar-imagem para manter a evidência do
laço etimológico Bild-bilden.
[8] « Das sie selbst
erst durch ihn her-vor-gebracht wird.»
[9] « Das Brigen, worin Maria und der Jesusknabe wesen…» Wesen, em sentido verbal, indica o exercer-se da essência, o estar-sendo.